Mundo Cao – Hard Rock crítico e ácido como o ser Humano

Mundo Cao: CD de lançamento

Um belo dia “topei” com um simpático sujeito no Facebook de nome Zeca Salgueiro e ele humildemente como tantos outros músicos, me enviou um link de sua banda. Ouvi a música, assisti o clip, reconheci o baterista que já é conhecido de todos – quem não sabe de quem se trata saberá mais adiante – e fiquei com aquele ponto de interrogação na cabeça: como pode ainda existir uma banda brasileira tão recente de Rock, que consegue fazer um som pesado, bom, coeso e que mesmo adotando uma abordagem de cunho sociológico, dicotomicamente se dá ao luxo de ser tão descontraída? O som desse trio nos remente à uma proposta há muito esquecida: o Rock ´N Roll pode ser pesado, consciente, bem feito, bem produzido, bem tocado e ainda assim ser bastante divertido!

O Mundo Cao (sim, sem o “til”) lançou seu primeiro CD em 2011 e trata-se de mais uma incrível banda paulista de Hard Rock, que diferentemente da maioria dentro do estilo, traz em suas letras críticas sociais e à acidez urbana que constatamos nas grandes cidades, gerando dessa forma um alerta às paranóias diárias e ao caos reinante no país. Com letras em Português, os vocais são divididos entre o guitarrista Fábio Gadel e o baixista Zeca Salgueiro – ambos com vozes marcantes, afinadas, bem encaixadas e sem os habituais maneirismos além da necessidade que muito costumamos ver em bandas semelhantes, ou seja, não tentam imitar quem quer que seja, o que por si só confere um gigantesco mérito à banda.

Fábio Gadel: guitarrista do Mundo Cao

Já falando do excelente trabalho instrumental, o timbre de guitarras escolhido por Fabio Gadel é do tipo que considero perfeito para riffs que pretendem extrair o maior peso possível, mas sem abrir mão da nitidez em cada nota – eu fazia questão de usar o mesmo timbre quando tinha banda e francamente ainda tenho especial predileção por esse som nas seis cordas. Insta salientar que o fato do cara ser um ótimo guitarrista ajuda bastante, afinal de contas equipamentos não fazem milagres – quem curte Zakk Wylde e uns outros nessa mesma linha, terá uma ótima impressão do seu trabalho de guitarras e talvez entenda melhor o que estou falando.



Zeca Salgueiro: baixista do Mundo Cao

O baixista Zeca Salgueiro – o tal sujeito que me apresentou o trabalho da banda – sabe trabalhar o baixo fazendo à risca a tão necessária ponte batida-harmonia, muitas vezes negligenciada por baixistas que se resumem a replicar no baixo as tônicas da guitarra, como se tocar baixo se restringisse a isso. O cara conduz linhas de baixo que têm peso, velocidade e groove, isso sem falar nos momentos em que cabe a ele criar aquela atmosfera que só mesmo um baixista competente é capaz de proporcionar. Zeca ainda faz algo que considero essencial em qualquer baixista de Hard e Heavy: dobra os riffs de guitarra quando necessário sem a menor dificuldade. O baterista que citei logo no início da presente matéria é nada menos Ivan Busic, o homem por trás da poderosa e magistral bateria do DR SIN, logo dispensa maiores comentários e apresentações.

Mundo Cao: ensaio

A faixa de abertura “Vampiros Existem” logo de cara é uma explícita crítica aos políticos e sua conduta, comparando-os com “vampiros” como bem acusa o título. Na seqüência temos “Força-Motor” cujo tema e clima tem aquela cara de “vamos cair na estrada sem olhar pra trás”, ou seja, Rock com batida, licks e riffs para acelerar a mente rumo ao infinito. “Surtado” é um nome bem apropriado para a faixa 3: andamento, ritmo e uma letra particularmente muito louca! Do pouco que parei para entender sobre essa letra em uma de minhas interpretações, entendi como uma crítica sobre o quanto a sociedade nos empurra em direção ao que todos dizem ser o “certo”, quando na verdade nem mesmo quem afirma tais “certezas” confia no que está falando. Destaque para os versos “E quanto mais eu me trato / mais longe eu fico da cura” – minha antiga professora de Teoria da Literatura teria ficado orgulhosa de mim ao menos pelo meu esforço.

“Maloqueiro Sem Futuro” é a quarta música do disco e foi através da qual tive meu primeiro contato com a banda. Tem de tudo um pouco: peso, técnica e crítica social. Tem alguma coisa de R&B em sua levada e por uma série de razões é uma das minhas prediletas até agora. Assistam ao clip logo abaixo:

A faixa 5 “Computadores Pros Pobres” já denuncia em seu título a intenção de criticar as diferenças sociais entre ricos e pobres, utilizando em sua letra termos bastante comuns do mundo informatizado em que vivemos, além de ser provavelmente uma cutucada (ainda que inconsciente) naqueles que adoram dizer que a inclusão digital é a salvação da lavoura. O andamento, a cadência e harmonias nessa música tem uma pegada bem mais Heavy do que Hard – e cá entre nós isso funcionou maravilhosamente, se bem que esse sotaque Heavy está presente ao longo de todo o disco e talvez isso torne o som do Mundo Cao ainda mais interessante. “Satanás Quer Turistas” é propensa à bateção de cabeça por conta da marcação de tempo e duração da mesma. Alguma coisa sutilmente hardcore permeada por riffs com jeitão de bay area.

“Insônia” é tremendamente pessoal para muitos de nós, pois parece tratar exatamente de uma das maiores aflições modernas, inclusive a desse redator que vos escreve. Claro que há outros elementos em sua letra que parecem se desdobrar, mas entendo que as madrugadas insones são o gatilho de uma série de outros sentimentos. A música inicia com o riff tendo os pratos de ataque pontuando o mesmo, ao qual se junta em um segundo momento o baixo dobrando o riff de guitarra, dando um charme de Heavy oitentista mas sem soar datado. Os primeiros versos tendo somente a linha de baixo ao fundo conferem um ar ligeiramente misterioso, mas sem apelação. Velocidade e solos fecham a faixa sem deixar pontas soltas.

“O Amor É Mentira” é composta por diversas mudanças de andamento e abusa do humor “dedo-na-ferida” bem direto ao alertar sobre o Amor. “Bug do Milênio” além de bem composta e executada, é uma daquelas que diverte do início ao fim. Encerrando o disco de estréia da banda, temos a música que leva o nome do grupo, mas dessa vez com o sinal gráfico “til”: “Mundo Cão”. Uma introdução clássica num estilo familiar tanto para o pessoal Hard quanto para o pessoal Heavy, nos leva à uma letra simples mas que diz, melhor traduz, exatamente do que se trata o ciclo natural de nosso mundo: quem tenta fazer as coisas do jeito certo “quase sempre se dá mal”. Pois é…”É o Mundo Cão!” – Ainda assim agradeço pelo “quase” que puseram na letra, senão estaríamos todos condenados.

Mundo Cao: Hard Rock com pegada

Há um outro mérito que merece ser citado: as músicas não são longas e cansativas, muito pelo contrário! Quando você se dá conta o CD acabou e lá está você escolhendo uma nova ordem para ouvir as faixas. Para mim quando alguém está curtindo um disco, ele termina e solta-se o famoso “Já?” isso é um excelente indício de que a banda realmente está muito acima das expectativas. Tentando resumir a banda Mundo Cao em cinco palavras eu diria: peso, inteligência, qualidade, diversão e criatividade.

A produção de Mundo Cao é de Andria Busic, a distribuição é da Tratore e a assessoria de imprensa está a cargo de Alessandro Fernandes.

Fontes & Referências: http://www.mundocao.com.br
Twitter: @MundoCaoBanda
Comments
  1. […] Para quem ainda não conhece, publicamos um review completo do CD de lançamento dos caras em novembro de 2011: https://rockuniverse.wordpress.com/2011/11/13/mundo-cao-hard-rock-critico-e-acido-humano/ […]

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